Os dados salariais só geram melhores decisões quando são interpretados com contexto.
Por Itziar Iglesias
Sempre que uma empresa decide rever os seus salários, há uma pergunta que surge quase de imediato.
Quanto está a pagar o mercado?
É uma pergunta legítima.
Mas, na maioria das vezes, está incompleta.
Antes de procurar uma resposta, há outra pergunta que devia vir primeiro.
De que mercado estamos realmente a falar?
Ao longo dos anos, tenho acompanhado empresas de diferentes dimensões e setores e há um erro que vejo repetir-se com frequência: assumir que basta comparar salários para tomar melhores decisões.
Na realidade, um bom benchmarking não começa pelos números.
Começa por perceber se estamos, de facto, a comparar realidades equivalentes.
O mercado não tem um único salário
É comum falarmos do mercado como se existisse um salário de referência para cada função.
Mas o mercado não funciona assim.
O valor económico de uma posição depende do setor de atividade, da dimensão da empresa, da região onde opera, do nível de responsabilidade da função, da escassez do perfil e até do momento em que a contratação acontece.
Por isso, quando alguém diz que “o mercado paga mais”, a primeira pergunta deveria ser sempre a mesma.
Que mercado?
Comparar empresas diferentes, funções com responsabilidades distintas ou dados que resultam de contextos específicos pode levar a conclusões erradas.
E decisões salariais tomadas com comparações erradas dificilmente serão decisões justas ou sustentáveis.
Benchmarking não serve para copiar
Existe uma ideia que vale a pena desconstruir.
O benchmarking salarial não existe para dizer às empresas quanto devem pagar.
Existe para lhes dar informação que lhes permita decidir como se querem posicionar.
Nem todas competem pelo mesmo talento.
Nem todas têm a mesma estratégia.
Nem todas precisam de pagar acima da média.
O benchmarking oferece contexto.
A decisão continua a ser da empresa.
É precisamente essa diferença que transforma um conjunto de dados numa ferramenta de gestão.
Dados sem contexto são apenas números
Nos próximos anos, as empresas portuguesas terão cada vez mais acesso a informação salarial.
Isso, por si só, não garante melhores decisões.
Os dados só ganham valor quando são analisados à luz da realidade da organização: a sua estrutura, os seus objetivos, a forma como gere o talento e a posição que quer ocupar no mercado.
No final, o verdadeiro valor do benchmarking não está em descobrir quanto pagam os outros.
Está em ajudar cada empresa a responder a uma pergunta muito mais importante.
Estamos a tomar decisões salariais coerentes com a nossa estratégia e capazes de ser explicadas?
Porque o benchmarking salarial não serve para descobrir quanto devemos pagar.
Serve para garantir que sabemos porque estamos a pagar aquilo que pagamos.




